Segundo mergulho

O que mais surpreende na cena política no Brasil atualmente é a baixa sensibilidade aos efeitos econômicos de ações equivocadas no passado. Não só pelo reconhecimento da falência do modelo “Estado provedor”, ou da situação de “bem-estar social” onde o principal vetor é o setor público, mas pela inépcia em visualizar a saída desse monstro devorador de riqueza que criamos. A consequência? O que se desenha como a maior e mais longa crise que  já experimentamos. Sim, aquela frase faz todo sentido: “nunca antes na história desse país”. Fica difícil imaginar o Brasil de amanhã, do mês seguinte e, quem dirá, do próximo ano. E, com essa falta de solução política, a economia entra, definitivamente, no que se denomina como segundo mergulho. Explico melhor. Não é de hoje que os economistas estudam os movimentos cíclicos de países, regiões, setores e etc. Períodos recessivos seguidos de crescimento são processos naturais, se diferenciando apenas no que diz respeito a duração ou magnitude. Experimentamos crises um pouco mais longas, outras mais curtas. Algumas mais intensas, outras mais brandas. É um processo natural. Desde 2013 que o Brasil visualiza um processo de desaceleração da produção, consumo e investimento, mas isso só passou a ser mesmo considerado uma recessão na segunda metade de 2014.

outubro

 

Naquele momento, a perspectiva era de que seria uma crise rápida, bastando o Governo fazer bom uso da Política Fiscal e Monetária – leia-se: segurar gastos e aumentar os juros. Com essa combinação, poderíamos trazer a inflação ao equilíbrio e permitir a continuidade de um novo ciclo de crescimento após seis a oito meses de ajuste. Mas, no meio do caminho, existia uma eleição e não é preciso muito para entender que esse diagnóstico não teria aplicabilidade em um país com Banco Central “dependente” da vontade política. Postergarmos o ajuste alguns meses. Até aí tudo bem, ainda haveria tempo para corrigir a trajetória da economia. Primeiro veio a política monetária com aumento dos juros, na expectativa de que, na sequência, o Governo desse continuidade anunciando e realmente implementando um ajuste fiscal forte. Esse não veio e, pior, entramos em uma crise política que paralisou o país. Seria exigir muito da ciência econômica que apenas um pouco de aumento dos juros seria suficiente para resolver os desequilíbrios macroeconômicos acumulados nos últimos anos. Perdemos a primeira janela de oportunidade de combate à crise. Aquele momento onde os custos de ajuste são menores, não precisa fazer muito, apenas garantir credibilidade, ser crível nas ações. Tal como na educação de uma criança. E essa perda agora terá um custo muito maior para a sociedade. A inflação ficou solta, exigindo mais da autoridade monetária. Ninguém mais acredita no Governo, exigindo ações que sejam mais enérgicas e realmente sejam implementadas.

Agora, os investidores estão esperando o resultado para apostar. E consumidores e eleitores ficaram sem norte. Assim, com essa inépcia, entramos no segundo mergulho do ciclo do que outrora seria apenas uma crise natural para se tornar realmente em uma depressão. Infelizmente não é dar tempo ao tempo, sentar e torcer para que as coisas se ajeitem. A solução de problemas econômicos que se tornam sociais, exige ação. Esse segundo mergulho que se inicia será realmente doloroso.

Escrito por Igor Morais e João Henrique Menegotto – Vokin Investimentos