Ela de novo?

 

O Brasil tem uma relação de amor e ódio com a inflação. Durante muitos anos os reajustes de preços perturbaram nossa economia, inviabilizando o planejamento de empresas, a precificação correta de ativos, a definição do valor dos salários e da nossa produtividade. Uma luta inglória que não foi só nossa. Outros países, atualmente desenvolvidos, também tiveram esse embate no passado, mas o venceram há mais de 50 anos. Já em terras tupiniquins estamos vivendo um filme da década de 1940. Parece longínquo que a maior conquista econômica no Brasil tenha sido a estabilidade de preços. Mas não foi, ela é recente, está na cabeça de quem tem mais de 30 anos. Para os demais, que representam 47% da população, é difícil descrever a vida em um cenário de inflação alta. Por isso que ela se tornou o ponto mais fraco da popularidade dos políticos que habitam Brasília. Não dá para minimizar os efeitos negativos da inflação sobre a sociedade, ainda mais porque iremos completar, ao final desse ano, 47% de reajuste de preços em um espaço de 6 anos.

Isso dá uma inflação média de 6,7% ao ano. É muito, sim, para quem pretende entrar no grupo dos países que vendem estabilidade de preços e também para um Banco Central que diz que adota o sistema de metas de inflação. Onde falhamos? Primeiro é a cisma do brasileiro com desenvolvimentismo. A palavra soa como música para todos. É bonito imaginar o Estado planejando tudo, inclusive como irá gastar o teu dinheiro. Quem sabe uma ponte aqui, uma estrada ali, um subsídio para um setor acolá e a criação de uma empresa para suprir a necessidade do mercado de determinado produto.

setembro

Sim, a ideia de promover o desenvolvimento com o Estado gastando tudo o que pode e não pode, nos trouxe a essa situação. Foi a nossa terceira onda desenvolvimentista da história. A primeira, na década de 1930. A segunda, no final da década de 1960. E a terceira, após a crise de 2008. Nas duas primeiras conhecemos bem o resultado, e a atual também não será diferente. Basta ver no gráfico o comportamento dos preços livres, que acumularam 7,7% em 12 meses terminados em agosto. Consegue notar uma tendência de elevação que vem desde 2009? Já era mais que tempo de vermos uma curva nos preços para baixo, exatamente porque iremos experimentar a maior retração da economia na história do Plano Real (cerca de 2,5%) e estamos diante da mais longa recessão no Brasil no pós guerra. Ou seja, não deveríamos ter inflação de demanda, com os preços livres em queda. Mas por que a inflação não cede? Vários motivos.

O primeiro foi nossa escolha desenvolvimentista. O segundo é a falta de credibilidade na política monetária do Banco Central, essa derivada do primeiro motivo. O terceiro é a baixa competição. Essa como resultado de uma economia fechada e também da existência de oligopólios e monopólios em pontos determinantes para a formação de preços. Os aumentos do IPI de importação e a recente desvalorização do câmbio resultam em fechamento da economia. Por fim, a indexação de preços, ainda presente no nosso dia-a-dia, seja em contratos ou mesmo em produtos livres. Isso porque impera a cultura de aumentar salário de acordo com a inflação passada, sem considerar a produtividade. Sim, ela está de volta, e acho que será necessário mais energia para combatê-la. Como não há ajuste fiscal, sobrou pros juros!

Escrito por Igor Morais e João Henrique Menegotto – Vokin Investimentos