Para onde estamos indo?

Alguns acontecimentos recentes colocam mais certeza sobre a percepção de que a economia continuará fraca e que o custo de enfrentamento desse cenário será maior que o esperado. A decisão de abandonar a política fiscal, sob a alegação de que, com isso, ganha-se em credibilidade, na verdade representa a chancela da incapacidade de gestão. E isso tem duas resultantes que preocupam. Primeiro que, com menor controle de gastos, o combate à inflação irá recair totalmente sobre a política monetária. Leia-se juros maiores. Na verdade, o Governo jogou a toalha e está esperando a desaceleração da economia dar conta do controle de preços. Isso é muito temeroso, pois os agentes possuem um comportamento adaptativo, e podem precificar períodos longos de inflação alta. Essa visão é chancelada pelo comunicado do Banco Central que sinalizou o fim do ciclo de alta de juros, mesmo com a inflação ainda teimando em surpreender para cima.

O que irá acontecer a partir de então? Simples, teremos um processo lento e gradual de retração da atividade produtiva e por lá ficaremos um tempo, em um típico formato de L. Passamos a ser torcedores para que as “coisas” deem certo. Lembre-se que os 10% de alta do câmbio no mês de julho ainda não bateram nos índices de preços. O que dizer então de um possível cenário de stress externo, em especial a mudança de juros nos EUA e no cenário político interno? Certamente podemos ter mais 10% de desvalorização do câmbio que, somado ao movimento anterior pode ser, sim, interpretado como uma quase maxi-desvalorização. Se o Banco Central pretende manter os juros nesse patamar, então teremos     stress na curva de juros futura, mesmo que esse seja um choque temporário. Além disso, como 30% da inflação do ano seguinte está vinculada à inflação do ano corrente, podemos ter nova piora da confiança dos agentes econômicos. É a conhecida inércia inflacionária. Assim, se terminarmos o ano em 10%, largamos em 2016 com uma inflação de 3%. Essa avaliação nos conduz ao segundo ponto resultante, a tese de que podemos ter a troca do Ministro da Fazenda.

01-julho

 

O mesmo já era um corpo estranho no Governo com suas propostas de política fiscal e agora fica claro que não irá entregar o que prometeu, nem em 2015 nem em 2016. E, de quebra, ainda pode ficar carimbado como o responsável pela atual crise sem ter feito nada. Será que sou só eu que acredito que não é só o salário que o mantém no cargo? Na minha opinião, uma nova rodada de números ruins da economia, somada à perda de grau de investimento, pode fortalecer a percepção de sua saída. Dito isso, na verdade, os últimos eventos contribuem, na minha opinião, para reduzir as incertezas para onde estamos indo. Desaceleração até o primeiro trimestre de 2016 e por ali ficamos um bom tempo, conjugado com continuidade de preços altos, juros acima de 14% e câmbio podendo se estabilizar perto de 3,8. Ao final teremos um maior custo para a dívida interna, pagando cerca de R$ 450 bilhões de juros ano e que devem incidir sobre um estoque de dívida/PIB que pode ultrapassar os 70% facilmente. Patamar considerado de risco pelas agências internacionais. A captação de dívida ficará mais cara, tanto para empresas quanto para governos e veremos a piora dos indicadores sociais. Felizmente, há estratégias financeiras para se proteger dessa tempestade. Esse cenário não é novo para nós.

Escrito por Igor Morais e João Henrique Menegotto – Vokin Investimentos