PIB: será que piora mais?

Provavelmente o leitor ficou triste com o resultado do PIB no primeiro trimestre do ano para o Brasil. Para mim foi uma surpresa positiva. Confesso que esperava uma queda maior do que os 0,2% anunciados pelo IBGE, talvez algo mais próximo a 0,5%. No terceiro trimestre de 2014 escrevi sobre a desaceleração da economia brasileira em curso e apontei que estávamos em recessão. Aquela data era o início do processo que acredito ainda não tenha se esgotado. Os elementos que trouxeram a economia brasileira para esse cenário, se tornam agora mais evidentes hoje.

Apenas para citar alguns, podemos ver a retração da indústria, aumento da inflação, piora nas contas externas e nas contas fiscais, deterioração do mercado de trabalho, endividamento das famílias, menor expansão do crédito e aumento
da incerteza. O resultado do 1ºT15 só não foi pior porque a agropecuária teve o melhor resultado dos últimos três anos e a indústria extrativa completou oito trimestres consecutivos de expansão, acumulando 17% de alta nesse período. Isso dá uma média de crescimento de 2% ao trimestre. É o inverso da indústria de transformação,que acumulou queda de 5,6%. O que está acontecendo? Estamos extraindo e não produzindo. É a famosa vantagem comparativa que temos em recursos naturais.

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Outro setor que chama atenção é a construção civil, que teve a maior queda dentre todos -4,3%. erá que ainda há espaço para piorar mais? Ou é o auge desse cenário recessivo? A crise não pode durar para sempre, mas o que vimos em abril e maio deixa antever que teremos ainda dois trimestres de resultados negativos. A maioria das ações de dispensa de empregados na indústria ocorreram agora, e continua reduzindo a produção para se ajustar a estoques.

Os juros elevados espantam os compradores de bens de maior valor, como imóveis e a inflação, que não cede, prejudica a formação de poupança. As restrições de concessão de seguro desemprego bem como o vencimento das concessões anteriores vão piorar os dados de mercado de trabalho nos próximos meses. Isso, junto com as restrições de crédito, produzirá impacto sobre o comércio. Para complementar, ainda teremos um segundo trimestre de mais ajuste fiscal, com o Governo tendo que segurar gastos, de um lado, e tomando recursos da sociedade com mais impostos de outro. Isso posto, espere um segundo trimestre com retração da ordem de 1,4% sobre o trimestre anterior. A questão é: para melhorar tem que parar de piorar, e isso ainda não está no horizonte de curto prazo.

Há uma chance de presenciarmos tal cenário no primeiro trimestre de 2016, mas nunca se esqueça dos fatores de risco. E são três: (i) mudança nos juros nos EUA; (ii) perda do grau de investimento; (iii) piora no cenário político. E estão apontados por grau de certeza de acontecer. Que os juros vão aumentar nos EUA, não há dúvida, essa paira apenas sobre a data, setembro ou outubro. A perda do grau de investimento depende do Ministro da Fazenda aguentar até os números começarem a vir positivos. Se ele sair, já era. Na questão política, bem, nunca consegui modelar o comportamento de um político. Estamos diante de uma crise que dura mais de nove meses. Pode ser que fique menos intensa, mas não vai livrar o governo de ter o pior resultado do PIB da era do Plano Real –1,5%.

 

Escrito por Igor Morais e João Henrique Menegotto – Vokin Investimentos