Década perdida?

Eu sei que o assunto é chato, mas é difícil não comentar os resultados das contas públicas referentes ao mês de maio de 2015. O déficit primário de R$ 8 bilhões fez com que o acumulado dos cinco primeiros meses do ano apresentasse o pior resultado da história do Plano Real (descontando os valores pelo IPCA), e acendesse em definitivo o alerta macroeconômico.

Nesse cenário há pelo menos três pontos perturbadores e que alimentam a tese da década perdida. Em primeiro lugar é a confirmação do baixo comprometimento do Governo Federal com o ajuste fiscal. Desde que o mesmo passou a ser foco de discussões, ao final de 2014, ficou claro que as estratégias iriam priorizar mais o aumento de arrecadação que controle de gastos. Mas isso não iria funcionar em uma economia já combalida pela elevada carga tributária e ineficiência do setor público. De fato, foi o que aconteceu.

Nos cinco primeiros meses do ano, a arrecadação caiu 2,7%, descontada a inflação, e os gastos aumentaram em 0,46%. Ou seja, um gap de ajuste de mais de 3%. O atual Governo tem muita dificuldade em cortar gastos, uma das poucas rubricas que “pagou essa conta” foi o PAC, com R$ 10 bilhões a menos que os primeiros cinco meses de 2014. Mas itens como seguro desemprego e pessoal e encargos sociais continuam aumentando. É importante rever a opção de ajuste para algo mais sério, ou todo o esforço e desgaste político atual não surtirá efeito macroeconômico e nos levará mais rápido para o segundo ponto que quero destacar: a perda de grau de investimento. Para mim, essa revisão é uma questão de tempo. Talvez, somente depois de saírem os dados do PIB do segundo trimestre, a serem divulgados em 28 de agosto, e que devem mostrar nova retração da economia, dessa vez significativa, da ordem de 1,7%, que as agências de risco tomem coragem de rebaixar a nota do Brasil. Aí teríamos realmente um mês de setembro terrível, ainda mais com a possibilidade de aumento dos juros nos EUA.

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O terceiro ponto que quero chamar atenção é de longo prazo e envolve o custo desse ajuste. Todo esse processo de enfrentamento da atual crise implica em manter juros elevados pelo tempo necessário para corrigir os desequilíbrios fiscais do passado e trazer a inflação para mais próximo da meta. Quanto mais tempo perdurar o desequilíbrio fiscal e a inflação continuar elevada, maior será o custo de ajuste a ser pago no futuro. De acordo com projeções de mercado, esse ajuste só deve se materializar ao final de 2016, isso se não tivermos nenhuma outra surpresa negativa como uma desaceleração econômica nos EUA ou choque do preço do petróleo.

Nesse caso, vamos continuar a pagar juros elevados sobre uma dívida que já é elevada e seu estoque deve aumentar ainda mais, e não é nada fácil reverter esse processo no curto prazo. É necessário muito comprometimento do Setor Público para com o tema “eficiência” e “competitividade” para recuperar credibilidade e ver a taxa de juros cair de forma rápida. Leia-se “reformas”. Veja a dificuldade fiscal e de crescimento que os países Europeus ainda enfrentam mesmo depois de seis anos do epicentro da crise internacional. Sim, não é difícil acreditar em uma década perdida. Já perdemos três anos (2012 a 2014) com crescimento médio de 1,5% ao ano, e o quarto ano, 2015, com –1,5% previsto, será o pior do Plano Real.

Escrito por Igor Morais e João Henrique Menegotto – Vokin Investimentos